Como calculamos o risco de alagamento
Cada rua monitorada recebe um índice de 0 a 100 para as próximas 1, 3 e 6 horas. Ele cruza duas perguntas: esta rua costuma alagar? E vai chover o bastante para isso?
Revisado em 16/10/2026. Histórico atualizado em 16/10/2026.
O que o número significa
O índice é uma medida relativa de risco, não uma probabilidade. Um 40 não quer dizer "40% de chance". Quer dizer que a rua tem histórico de alagar e que a chuva prevista se aproxima do volume que costuma causar problema. Só passaremos a falar em probabilidade quando o modelo estiver calibrado contra o histórico, como explicado em Limitações.
| Índice | Nível | O que fazer |
|---|---|---|
| 0 a 14 | Risco baixo | Pode seguir. |
| 15 a 39 | Fique atento | Pode alagar se a chuva vier mais forte que o previsto. Tenha um caminho alternativo. |
| 40 a 69 | Alerta | Evite a região. Se já estiver nela, procure um lugar mais alto. |
| 70 a 100 | Alerta máximo | Não passe. Nunca atravesse água em movimento. |
As quatro cores seguem a escala de avisos por impacto da Organização Meteorológica Mundial, a mesma lógica usada pelo Met Office britânico e pelo Kikikuru japonês.
De onde vêm os dados
Histórico de alagamentos: CGE
O Centro de Gerenciamento de Emergências da Prefeitura publica, dia a dia, cada ponto de alagamento observado, com horário, sentido e se a via ficou transitável ou intransitável. Coletamos 1089 registros entre 2 de janeiro de 2025 e 14 de outubro de 2026, em 132 dias com ocorrência.
O CGE escreve o endereço em texto livre, como "AV MAL TITO | sentido BAIRRO". Nós atribuímos cada registro a uma via do cadastro oficial pelo nome. Hoje 1023 registros (94%) têm via atribuída. Os outros 66 ficaram de fora por grafia ambígua, como "Marginal Tietê" sem dizer a pista. Preferimos deixar de fora a atribuir à rua errada.
Vias: GeoSampa
Os nomes e traçados das ruas vêm da camada de logradouros do GeoSampa, o mapa oficial da Prefeitura. Todos os trechos de uma mesma via recebem o histórico dela.
Previsão de chuva: Open-Meteo
A chuva prevista hora a hora vem do Open-Meteo, em uma grade de cerca de 9 km sobre a cidade, com três modelos meteorológicos independentes: ICON (serviço alemão), GFS (serviço americano) e IFS (centro europeu ECMWF). Usar três modelos permite medir quanto eles concordam.
Como o índice é calculado hoje
O sistema recalcula todos os 11.499 trechos de via com histórico a cada minuto. Os modelos de chuva costumam publicar uma rodada nova por hora, e o recálculo frequente garante que a rodada nova entre assim que sai.
- Suscetibilidade da rua. Quanto mais vezes por ano a via alagou, mais perto de 1. Ruas que alagam cinco ou mais vezes por ano ficam perto do teto.
- Limiar de chuva. Usamos um limiar único para a cidade, ajustado a um estudo de limiares de alagamento urbano em Roterdã (Tian et al., 2019) e à ordem de grandeza do aviso amarelo do INMET para chuva intensa: cerca de 15 mm em 1 hora, 30 mm em 3 horas e 48 mm em 6 horas.
- Concordância dos modelos. Contamos quantos dos três modelos preveem chuva acima do limiar na célula da grade mais próxima da rua.
- Combinação. O índice sobe com a suscetibilidade, com a concordância e com quanto a chuva prevista se aproxima do limiar.
índice = 100 × suscetibilidade × (0,35 + 0,65 × fração de modelos acima do limiar) × (1 − e−1,5 × chuva prevista ÷ limiar)
Sem chuva prevista, o índice de qualquer rua fica perto de zero, por mais que ela costume alagar. Esta é a versão heurística, documentada e reproduzível, usada enquanto o modelo estatístico não está treinado.
Limitações
- Ainda não validado. O índice não foi comparado formalmente com o que aconteceu. A validação prevista mede acertos e alarmes falsos por faixa (POD, FAR e CSI) e a calibração das probabilidades (escore de Brier).
- Histórico curto. São 132 dias com alagamento desde janeiro de 2025. Uma rua que alagou muito antes disso, mas não nesse período, pode aparecer com risco baixo.
- Só ruas com histórico. Ruas sem registro do CGE no período não recebem índice. Isso não significa que não alagam.
- Chuva muito localizada. Tempestades de verão em São Paulo costumam ter poucos quilômetros. Uma grade de 9 km pode não ver uma célula forte sobre um bairro.
- Ainda sem terreno e sem áreas de risco. Relevo, distância a córregos e as áreas de risco hidrológico do GeoSampa estão no plano, mas ainda não entram no cálculo. Também não sabemos de bueiros entupidos ou obras.
- Teto atual de 60. Na fórmula de hoje, a suscetibilidade máxima é 0,6, então o índice não chega a 70 e o nível "Alerta máximo" ainda não é emitido. O ajuste está previsto para a etapa de calibração.
O que vem a seguir
- Carregar o histórico do CGE desde 2005 e a chuva medida pelos pluviômetros do INMET e do CEMADEN.
- Calcular limiares de chuva por rua, a partir dos dias em que ela alagou e dos dias em que não alagou.
- Incluir relevo (altura acima da drenagem, índice topográfico de umidade) a partir do modelo digital de terreno da Prefeitura.
- Treinar e calibrar o modelo, publicar o relatório de validação nesta página e só então mostrar probabilidades.
Referências
- Organização Meteorológica Mundial. Guidelines on Multi-hazard Impact-based Forecast and Warning Services (WMO-No. 1150), 2015 e 2021.
- NOAA National Weather Service. Turn Around, Don't Drown.
- Japan Meteorological Agency. Mapa de risco de inundação (Kikikuru), atualizado a cada 10 minutos.
- Tian, X. et al. Critical rainfall thresholds for urban pluvial flooding inferred from citizen observations. Science of the Total Environment, 689, 2019.
- Nobre, A. D. et al. Height Above the Nearest Drainage, a hydrologically relevant new terrain model. Journal of Hydrology, 404, 2011.
- Gourley, J. J. et al. The FLASH Project. Bulletin of the American Meteorological Society, 98, 2017. doi:10.1175/BAMS-D-15-00247.1.
- Prefeitura de São Paulo. CGE, pontos de alagamento e GeoSampa.
- Open-Meteo, documentação da API de previsão, licença CC BY 4.0.